
Era a última vez que eu entraria naquele quarto, só que eu não sabia disso. Um quarto que fez parte da minha história, por ser o coração de uma casa que me fez muito do que sou e sei de mim, hoje. Eu ainda estava falando em espanhol, com uma breve passagem pelo Brasil, retornando para o Chile que ainda me receberia por seis meses para encerrar meus tempos andinos e virar finalmente baiano. O ano era 2002. O mês era julho. O dia eu não me lembro, mas passou a ser o dia mais importante do meu encontro com aquela mulher. Eu me lembro do cheiro do ar, úmido como um céu que chorava suas saudades. Eu respirava uma tranquilidade acima de mim, como se uma torrente de certeza cometesse uma invasão benvinda à parede de minhas incontáveis dúvidas. Estava com minha mãe, a minha maior referência de gentileza, de cuidado com o outro, de delicadeza com os momentos importantes da vida de quem a rodeia.
E era o caso. Um momento ímpar, de encontro com a finitude. O instante em que pude, de forma inédita, conversar com alguém que estava morrendo, sobre esta instância tão temida chamada morte. Aquela senhora então franzina, encoberta por panos que já não lhe abrigavam de nada, passou grande parte dos seus sessenta anos fazendo parte da vida de meu pai – sua irmã mais velha, sua mãe substituta, um dos seus faróis na existência. E, por conseguinte, tão querida a mim, no seu abraço almofadado de sorriso tímido e humor delicioso. Minha memória solar de minha tia se assombrava ali, ao entrar naquele quarto, e deparar-me com a imediatez de sua morte, já deitada com ela, acalentando-a e preparando-a para o derradeiro adeus. Ela não era mais a mulher corpulenta, e sim um corpo frágil ferido por anos de luta contra um câncer que foi passear, deu uma volta e retornou mais agressivo e letal. Começamos a conversar e ela deu o tom, como no início de uma melodia que comporíamos em parceria, dizendo que seria a última vez que estaríamos juntos. Eu assenti com a cabeça, consciente de que meu papel ali seria de conversar com ela sobre a morte, sobre a sua morte; sobre estes temas que tratamos como óleo de rícino, mas que são apenas uma verdura de sabor amargo, possível de ser tragada porque parte da vida.
Nós nos agradecemos por tudo o que fomos, um na vida do outro. Rimos juntos ao nos depararmos com nossas lembranças de cenas hilárias, onde o ridículo agora ganhava o tom de gracejo. A emoção veio em mim diversas vezes, e assim eu fiquei, nessa incontinência que o choro sempre teve em mim, olhando para ela que nem chorar conseguia, não por sua debilidade física. Ela já tinha aceitado a própria finitude, e a sua tranquilidade me inspirava, fazia-me conhecer um mundo que ainda não me tinha sido apresentado. Ela, minha primeira mestra de cerimônias da morte e do morrer.
Falamos de Roberto Carlos, uma de suas paixões. O Rei representava a delicadeza que ela buscava no humano, atrelado à identificação religiosa que sempre existiu entre ela e seu ídolo. Muitas vezes eu mesmo ri de sua devoção àquele cara, até que um dia ela me levou a um show dele. E aí uma mágica se deu, porque eu entendi o que representava aquele homem não para ela, mas para uma parcela importante do meu país. O maior talento dele sempre foi o de falar profundamente através de letras e melodias simples, acessíveis a qualquer coração brasileiro.
Eu disse a ela, naquele último dia juntos: “Tia, eu tenho certeza que você sempre estará comigo em todos os shows dele. Pode deixar, cantaremos juntos um monte de jovens tardes de domingo”.
Dez anos depois, eu estou de frente para o Rei, e as emoções se repetindo. Eu em paz com a vida e com o que ela me trouxe – uma família que me parece uma bênção diária, uma profissão que exerço com paixão e amigos leais por várias partes do mundo. Além do horizonte que eu pude contemplar naquele show de luzes impressionantes e com uma orquestra filarmônica travestida de banda de MPB, eu vejo minha Tia. Ela tomou minha mão, meu coração, minha alma, e me levou a cantar, a chorar várias vezes, a sorrir outras tantas. Ela esteve ali, comigo. Ela e o marido dela, um aparente homem durão, mas com uma sensibilidade mais sutil, acessível somente a olhos mais apurados – que, pelo machismo que o educou, nunca pôde assumir o quanto verdadeiramente gostava de Roberto. E com eles eu cantei aquelas canções, reaprendendo a função da saudade de acalentar o presente, trazendo de volta aqueles que já não existem mais.
Numa atmosfera de profunda paz, que é o que de melhor Roberto Carlos consegue construir na plateia que ali o reverencia, eu voltei às minhas jovens tardes de domingo. Voltei à minha mineiridade, aos encontros mais essenciais com todos que talharam em mim histórias, valores e jeitos de sorrir. Eu nem tento esquecer você, minha Tia, porque não quero. Obrigado por ter sido a primeira pessoa que me ensinou a participar da despedida de alguém deste mundo, acessando uma profundidade existencial ímpar, difícil de ser conhecida por quem só se preocupa com o lado sorridente dos seus dias. Naquele dia, diante do Roberto, você foi quem jogou flores para mim, dizendo que você estava ali. Você, que certamente está em algum lugar bonito pra viver em paz, fez daquele nosso encontro o detalhe tão grandioso de nós dois, coisa impensável de se esquecer.

(Foto: “Wilted bouquet in vase”, de Jen Gotch. Fonte: Getty Images)
Sentado na minha cadeira que gira, eu vejo meio mundo se contorcendo de dor por várias mortes célebres. Duas tragédias, duas antíteses ao que costumamos chamar de mundo: uma cantora brilhante como poucas que escolheu a prisão da droga como sua estratégia frustrada de libertação, e dezenas de nórdicos executados por uma motivação incompreensivelmente torpe. Amy Winehouse e os noruegueses assassinados são notícias-bomba que explodem em nossas cabeças, atordoando-nos quanto às questões existenciais mais fundamentais: por quê, qual a lógica, como evitar, como ter mais paz… Perguntas existenciais são aquelas que renegam todo tipo de resposta. Ao invés de cumprirem o seu destino mais óbvio de transformar a interrogação em ponto final, as perguntas existenciais preferem um silêncio que não quer falar. Estas mortes todas nos entregam aos dilemas de uma existência que não dá trégua, que enfrenta nossa esperança e ordena que esses paradoxos se refugiem em nossas gargantas.
Compadecer-nos das grandes tragédias é um serviço que prestamos à permanência da solidariedade como laço de convivência humana neste planeta. É fundamental a lágrima que rola em cada um, o comentário que duas senhoras compartilham no ônibus que lhes sacode às sete da manhã. É importante, para que nós sigamos nos chamando de “humanos”, escutar as interjeições assombradas de todos aqueles que nos cercam. Digo isto porque é muito fácil construir uma cegueira que nos anestesie para as dores do mundo. É possível deixar de se comover com as tristezas que o mundo nos mostra em série, com a justa argumentação de que precisamos manter algum tônus para levar adiante nossas vidas errantes. Eu sei que é possível, eu sei que faço, que todos fazemos.
Eu sei também que espetacularizamos a morte, como mais um dos holofotes que inventamos para hiperbolizar as coisas da vida. Por isso, a morte de Amy e a morte dos noruegueses ganha mais destaque do que as inúmeras mortes na África, onde genocídios permanecem como padrão de relação entre o poder e as gentes. Nós e a imprensa também escolhemos manter mais visíveis estas mortes, no lugar de por exemplo dar voz às pessoas que sobrevivem para enterrar tantos mortos numa Guerra Santa que é a própria visão do inferno. Há dores, sim, maiúsculas, nestas pessoas que não ganham destaque no noticiário, que têm que chorar seus mortos sem amparo público, sem o cuidado dos amigos, na solidão de suas misérias.
Aqui, bem perto de mim, no Largo em que estaciono meu carro, olho para o chão de paralelepípedos, e um jorro de sangue não cessa de escorrer. Caô, um flanelinha que usava a sua bicicleta para chegar ao trabalho todos os dias, foi assassinado, ainda sem explicação coerente. Tinha mais ou menos a minha idade, e um filho com o mesmo nome. Mas éramos muito diferentes – eu entrava num carro, ele ficava na rua, muitas vezes dormindo no banco de concreto. Eu voltava para trabalhar, ele me sorria sem saber como pagaria a comida de seu filho no dia seguinte. Agora eu sei que, além da incerteza sobre a provisão de sua família, havia ali naquele olhar opaco a dúvida sobre até quando estaria vivo para dar as suas pedaladas.
Um de seus companheiros de asfalto, Alfredo, um homem parrudo com alma de criança, é quem me conta a tragédia. Chora, me abraça, pede um colo. Ficamos ali, os dois, num céu de meio-dia, o sol queimando nossas dúvidas, enquanto o trânsito engarrafado continuava a buzinar problemas menores. Depois de um tempo ele se refaz do choro, constrangido por “ter me incomodado”, e olhando para baixo dispara: “eu precisava de falar disso com alguém importante que sabia o quanto ele era legal”. Estas palavras retumbaram na minha cabeça, e talvez a quase-enxaqueca que tive no final de semana responda por isso.
Por que Alfredo precisou do meu aval, da minha “importância”? É porque o sofrimento dele era invisível. Na invisibilidade das vidas do asfalto, a dor tem que ser sublimada como mecanismo de sobrevivência. As pessoas invisíveis choram por dentro, enquanto continuam levando a vida como podem, sem oportunidade de um consolo mínimo.
Por isso, enquanto as mortes célebres são choradas por milhões, eu volto minha alma para a morte que ronda a esquina de todos os meus dias. Minhas palavras são uma oferenda à memória de Caô, que vestia uma jaqueta de segurança e me confirmava, diariamente, o amor pelo seu filho. Caô, meu velho, eu faço por você vários minutos de silêncio, pensando no seu Luã que agora não tem como acreditar que aquela jaqueta era como o uniforme de um super-herói. Ele já sabe que todos somos frágeis, uns mais do que os outros, mas a dor que imagino nele me dilacera; não ver você aqui no largo me entristece e o abraço que recebi de seu brother é uma prova de que todos nos fazemos as mesmas perguntas, sobretudo nos momentos em que gente como você vai embora.
Mas é hora de voltar, há gente que me espera do lado de fora da sala, talvez para falar de outra morte visível. Suspiro, recitando um silêncio de paz por todos aqueles Caôs que ainda vivem, correndo da morte com suas bicicletas frágeis. E por todos os que já se foram cedo demais, muito antes que pudéssemos vê-los como um de nós.

(Foto: “Delicadeza”, de Sérgio T. Lopes. Fonte: Flickr)
Eu não sei se estou atrasadíssimo ao iniciar um blog, anos depois do primeiro boom. Este atraso (ou delay, como podem preferir meus amigos pós-modernos) já pode significar um ícone de quem eu seja. Sou uma alma moderna repousando sua angústia numa pós-modernidade que eu quero tentar entender. Um atrasado que não consegue entender nem uma amostra do tudo que se entende-sabe-vive. Um coelho de Alice que quer perder mais ilusões, para poder ganhar outras.
Portanto, eu começo um arquivo de idéias que eu ainda não sei exatamente a que veio, porque eu ainda não terminei de escrevê-lo. Vou caminhar acreditando que, caminhando, o esboço vai se fazendo contorno, e o contorno vai se fazendo linha firme. Quero transformar minha incerteza em diálogo - comigo, com meu tempo, com meus amores, com a minha psicologia e a dos outros, com as culturas que eu descubro, com meus filhos que me ensinam a redescobrir o mundo através dos olhos seus.
Tenho a delicadeza como meta de vida, como instrumento de renovação de um ar poluído pela pressa que não consegue chegar a lugar algum. O encontro humano me define, é a partir dele que ligo o que fui ao que serei. Uma certa mulher de olhos improvavelmente verdes e dois sorrisos de menos de vinte quilos são minha moldura nesta existência. Gentes vêm me contar porque sofrem, todas as semanas, e eu sento naquela cadeira que gira, dando voltas em mim mesmo, porque sei que sou reescrito por cada texto que me pedem para escutar. Sou mineiro, baiano, chileno e bibliófilo. Sou cinéfilo, pai, fã de Chico Buarque e mais natureba a cada dia. Sou terapeuta familiar e gosto de inúmeras outras psicologias, não fui antropólogo e compenso essa renúncia num jeito estranho de viajar, usando as praças públicas para conhecer os típicos cidadãos daquele novo solo que piso.
E escrevo para desentender menos o tempo que molha meus olhos.